ANÁLISE: O sistema prisional feminino pelos olhos de Dráuzio Varella

Já faz um tempo que o sistema prisional brasileiro tem sido alvo de grandes críticas e análises, feitas por pessoas de gêneros diversos. As injustiças cometidas diariamente por profissionais cujo papel seria proteger toda a população brasileira ainda são várias e, por esse motivo, esse tema deve ser levantado sempre que possível. No entanto, apesar do assunto ser amplamente discutido entre a grande maioria das classes sociais do país, pouco se fala sobre uma das parcelas mais marginalizadas no Brasil: as mulheres.

‘Prisioneiras’ e a realidade da população carcerária feminina

Em meio a tantas análises englobando o sistema carcerário masculino, uma das poucas obras literárias que buscam relatar a realidade do gênero oposto nas prisões tem como autor ninguém menos que o médico mais famoso do país. Ao longo do livro ‘Prisioneiras’, Dráuzio Varella conta, em detalhes, as histórias que ouve semanalmente durante suas horas de trabalho voluntário na Penitenciária Feminina da Capital. Situado na cidade de São Paulo, o presídio abriga mais de mil detentas – algumas cuja pena está de acordo com os parâmetros estipulados pela justiça e outras, nem tanto.

Sistema prisional feminino
População carcerária feminina no Brasil – Foto por Fernando Araújo

Ao longo das consultas oferecidas a mulheres com as mais diferentes realidades, Dráuzio constata que são três os principais fatores que levam essas indivíduas à vida do crime:

  1. Infância negligenciada. Crianças que não recebem amparo familiar, atenção ou carinho e que são maltratadas ou agredidas.
  2. Falta de orientações firmes, que imponham limites ao adolescente.
  3. Convivência com pares que vivem na marginalidade.

Não é difícil perceber que todos esses três fatores são constantemente agravados por situações às quais, atualmente, grande parte da população feminina periférica é submetida. Gravidez na adolescência, violência sexual e instinto materno são apenas alguns dos acontecimentos que induzem essas pessoas a fazerem parte da mesma estatística que consolidou o aumento de 567% no número de mulheres encarceradas entre os anos de 2000 e 2014. A partir da necessidade de sustentar famílias inteiras ou do desejo insaciável de fazer justiça com as próprias mãos, são essas as pessoas que compõem 10% da população carcerária brasileira.

O que é ser mulher: Prisioneiras
Capa do livro ‘Prisioneiras’, de Dráuzio Varella – Foto por Letícia Miranda

As mulheres como vítimas

Embora a enorme maioria dos presos no Brasil sejam homens, ‘Prisioneiras’ deixa explícito o fato de que são esses os responsáveis pela prisão de uma parcela bastante significativa das detentas femininas no país. Ao transportarem drogas ilegalmente para dentro dos presídios ou entrarem na vida do crime para contribuírem com o pagamento de dívidas de seus namorados e parceiros, centenas de mulheres são condenadas a penas que as obrigam a abandonar filhos e pais idosos para cumprirem regime fechado. São milhares de vidas tomando um rumo inesperado em decorrência de um sistema que, constantemente, falha em averiguar circunstâncias fundamentais durante audiências e julgamentos.

Por meio de histórias como as de Lu Baiana, Valdê e Mariazinha da 45, Dráuzio Varella expõe a realidade de pacientes que, acima de tudo, são pessoas lutando por sua liberdade e reconciliação com a família. Além disso, sua obra conta com relatos relacionados à homossexualidade nas prisões femininas, aos principais passatempos das detentas e a comportamentos inusitados, dignos de participação em uma obra documental escrito por uma das personalidades mais relevantes do país.

O olhar feminino sobre o livro

Embora seu autor seja uma figura masculina, o livro ‘Prisioneiras’ não falha em denunciar a precariedade dos órgãos que condenam mulheres por acontecimentos que, com grande frequência, poderiam ser evitados com a erradicação da desigualdade social e de gênero no Brasil. Essa é, definitivamente, uma narrativa que merece ser lida e relida por leitores de todas as idades e gostos.

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Escrito por Julia Santos

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