ANÁLISE | Queer Coding, Queer Baiting e representatividade negativa.

Junho é o mês de celebrar o orgulho LGBTQIA+ e, em tese, um momento de exaltar essa parte vital de nossa identidade. Falando assim, parece mais que existe segurança para isso. Que existimos em segurança. Em um mundo capaz de compreender que nossa sexualidade não nos diferencia dos demais. 

Mas, como sentir-se abraçado pelo mundo quando muitas vezes nos falta um abraço de quem amamos? Ou quando a própria mídia faz o desserviço de transmitir representações muitas vezes esdrúxulas sobre quem somos? A escassez de personagens LGBTQIA+ anda caindo, é verdade, mas ainda parece mais como totem do que parte de um sistema orgânico. E de situações como essa, nasceu o queer coding. 

Afinal de contas, o que significa esse termo?

É quando um personagem não é explicitamente queer, mas é caracterizado como. A nocividade do coding se dá pelo fato de usarem estereótipos para representar personagens no audiovisual. Traços de “masculinidade” ou “feminilidade” exagerados podem ser vistos por aí, e a persistência de relacionar toda comunidade como hipersexual. Lembrando sempre que não existe algo como característica intrínseca queer, visto que somos todos indivíduos bem diferentes em nossas singularidades?

Vamos citar alguns célebres personagens com a tal “codificação”: em High School Musical, Ryan Evans é colocado como um rapaz amante da dança, rosa, e tem personalidade “sensível”. Nada disso deveria ser indicativo de sexualidade, muito menos é errado, mas é feito propositalmente para a audiência ler o personagem de certa forma. Outra maneira de coding, e nessa a Disney é campeã absoluta: a do vilão.

Scar (Rei Leão), Hades (Hércules) e Gaston (A Bela e a Fera) foram criados como contrapontos de seus inimigos e heróis da história, que apresentam uma “virilidade” que os falta. E finalizando com as citações da  Disney, temos Úrsula, uma vilã baseada numa drag queen. Para exemplo de vilões gays bem representados, fica a indicação da série Legion. Ou até mesmo Villanelle, de Killing Eve, é uma vilã bissexual cuja personalidade e trejeitos não mudam por conta de sua sexualidade. 

É revoltante pensar na existência desse conceito, onde para alguém se provar homem ou mulher, tem que seguir arquétipos ditados há muito tempo atrás. O caso mais agravante é quando o vilão é um predador sexual; e os seus realizadores colocam-no em espectro de estereótipos LGBTQIA+. É de um perigo enorme associar a sexualidade de alguém com algo que é, literalmente, um crime. E dos mais graves. 

A impressão do espectador médio é de que ser não-hétero e não-cis traria consigo uma mancha, um alvo em suas costas. Somos influenciados pela cultura audiovisual o tempo inteiro, mesmo no marketing, logo se aprende que a televisão é a primeira referência de um comprador… Imagine, aqui, o poder dela como formadora de opinião?

Enquanto falamos de queer coding, também é importante falar sobre queer baiting. 

 

Mais uma vez, o que seria o baiting? 

 

Acontece quando produtores, escritores e envolvidos na obra colocam características ou desenvolvem químicas que levam o espectador a acreditar que estão diante de um personagem representativo. Quando, na realidade, o plano é apenas atrair espectadores LGBTQIA+ e deixá-los na beira do sofá esperando pelo final da obra. Sempre na esperança que seu casal aconteça.

O tema não é tão simples, mas vale estudar: 

Podemos citar como exemplo, Finn e Poe da recente franquia de Star Wars. Oscar Isaac (Poe), deu inúmeras entrevistas falando sobre interpretar o piloto de maneira “dúbia” enquanto tentava convencer a Disney a lhe entregar um romance com Finn.

A Disney não comprou a ideia, mas o ator estava engajado na campanha; e muitos, muitos fãs. No entanto, um belo exemplo de baiting está no livro que antecede Ascensão Skywalker e Finn diz para Poe que Rey é apenas sua melhor amiga, e Rose não era a pessoa de que ele gostava. Para os observadores de subtexto, estava clara a seta apontando para Poe como um possível romance. Mas nada disso aconteceu nos cinemas. Ainda no mundo de Star Wars, temos Lando Calrissian (na versão do filme solo de Han Solo)  caindo na categoria de queer coded.

Outro caso notório vem da emissora CW, famosa por casos assim: Dean e Castiel em Supernatural; e mais recentemente, Kara Danvers e Lena Luthor. Até mesmo a ex-Grey’s Anatomy, Chyler Leigh, disse que gostaria de ter dado uns beijos em Lena durante a série. Kara e Lena até mesmo dividem a simbologia das cores azul e vermelho que Clark e Lois dividem— seu primo, um tal de Superman! Inclusive, mesmo cenas de Kara levando Lena em “bridal pose” (onde alguém carrega a outra como uma noiva, nos braços) já aconteceram na série.  Elas possuem um fandom enorme, e o nome do ship é “Supercorp”.

A química existe, e sabemos que ao menos Katie McGrath é disposta a interpretar personagens LGBTQIA+, dado seu histórico como atriz. Muitos fãs fazem campanhas para conseguirem o final desejado, mas o baiting não é tolo. Queer baiting é algo tão pensado quanto o coding; apenas vez ou outra surge uma química inegável, e em diversos momentos, a solução é afastar os personagens. Em adaptações, a desculpa é de não transformar o cânone. Mas Supergirl é bi nos quadrinhos, e nada impediria o canal de entregar o final desejado pela audiência que ainda os leva.

A CW chegou ao ponto de fazer Castiel declarar seus sentimentos apenas para morrer depois. Uma década de fãs especulando para ser entregue a trope da rejeição e morte. Como sentir que somos aceitos pelo mundo, quando nem mesmo a indústria cultural consegue abraçar toda diversidade de gênero e sexualidade que existe ao nosso redor? 


Quem aí lembra que o primeiro beijo de Naruto foi com Sasuke? E que a obsessão de um pelo outro foi todo o fio da trama… Para, no final, absolutamente todos os personagens casarem antes dos 20 anos e serem cis-gênero. A peculiaridade em Naruto é que em sua continuação, Boruto, os filhos dos dois (uma menina e um menino, fisicamente parecido com ambos) possuem chances de ficarem juntos. No quesito anime, Given e Yuri on Ice é uma pedida bem melhor para os que procuram representatividade. 

 

Esperanças de um futuro melhor 


Depois de tantos exemplos ruins, podemos nos agarrar no sopro de esperança que são os novos desenhos. Recentemente, She-Ra encontrou o amor nos braços de sua ex-melhor amiga, transformada em inimiga, e por fim, Catra sofreu uma redenção para acabarem juntas.

A Lenda de Korra é outro exemplo, mas agora de como construir um relacionamento aos poucos, de forma saudável, e não deixar os fãs apenas na expectativa. “Korrasami” e “Catradora” são casais antagônicos, mas onde ambos foram desenvolvidos sem o intuito de enganar a audiência. Adventure Time fez o mesmo, assim como Steven Universe. Existe sim, esperança para que a nova geração cresça mais receptiva. 

Que os tempos de tropes envolvendo mortes de lésbicas e vilões caricatos fiquem para trás. 

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