CCXP24 | Homenageado deste ano, Wagner Moura se emociona e tem vontade de ser um lobisomem

Um dos maiores atores nacionais, que do teatro passou em novelas e atualmente está focado na sua carreira internacional com séries e filmes, Wagner Moura é o homenageado deste ano da CCXP 2024 em São Paulo.

O ator que encarnou personagens como Olavo, Capitão Nascimento, Pablo Escobar (internacionalmente) e muitos outros, compareceu na coletiva de imprensa antes de subir ao Palco Thunder (para homenagem), falando sobre CCXP e homenagem, projetos futuros, sucesso, carreira e citou Ainda Estou Aqui por conta do nosso cinema nacional está sendo tão celebrado e do tema retratado. Confira como foi:

Como foi receber uma homenagem na CCXP e o que ele espera quando entrar no Palco Thunder

Quando perguntado sobre como foi ter recebido essa homenagem da CCXP, Wagner disparou “nunca fui em uma CCXP (…) os caras do Omelete, é uma galera que ia no set de filmagem entrevistar a gente com o microfone e eu não tinha noção de como aquilo virou uma coisa tão grande. (…) então um evento desse achar que vale a pena me homenagear, é incrível. Fiquei super feliz! Não tem muito o que dizer, na hora que eles me convidaram, aceitei na hora”

Sinceramente eu acho que que vai ser massa, eu tô super feliz, eu tô animado para receber (…). porque na verdade é uma demonstração de carinho grande que você vai receber, essa do menino que falou que  gosta de mim, imagino que haverá muitas pessoas ali que acompanham as coisas que eu faço e outras pessoas mais jovens que talvez não tenham nem visto tantas coisas que eu fiz né?”

Carreira internacional e desafios sobre 

Com o lançamento do seu último projeto Guerra Civil, Wagner conta que só aceitou o papel pela admiração do diretor Alex Garland, pois já mantinham um contato para um futuro trabalho. Falando sobre os desafios que uma carreira internacional envolve, ele cita Narcos, que foi das suas estreias internacionais e que mais deu falatório por conta não só dá atuação, mas pela pronúncia do espanhol:

“Por um tempo também era uma coisa que eu ficava muito preocupado de estar falando errado. Então quando eu fiz Narcos, por exemplo em espanhol, era fo** porque metade do meu cérebro ficava querendo estar ali no personagem e a outra metade dizia “eu acho que pronunciei essa po*** errada”. 

Com as duras críticas que qualquer ator estrangeiro sofre com a língua nativa daquele país, Wagner aproveitou para falar sobre: 

“Hoje eu me libertei desse sentimento: eu vou lá e faço, se não soar bem também, não soou… porque também veio um sentimento muito bonito em mim recentemente que eu sempre tive, de uma autoafirmação da minha brasilidade, sobretudo dentro do contexto do cinema americano de pensar que aquele país é feito de gente que nem eu, que falam com sotaques diferentes diversos de lugares diversos. Então eu me sinto hoje muito mais confortável de falar, menos preocupado com o jeito que eu falo inglês. Mesmo assim, a minha emoção ela vem filtrada quando eu falo em outra língua.” 

Qual gênero de terror e personagem que gostaria de trabalhar

“Terror… sabe, suspense. E o negócio de lobisomem que eu acho legal, é porque lobisomem, além de ter um negócio do gênero, tem a coisa do personagem em si, que é você entender o que faz uma pessoa ser amaldiçoada a ponto de virar uma besta selvagem e de repente devorar as pessoas que ela ama, que ela gosta, (…) eu acho que como personagem, é um negócio fascinante.”

Uma curiosidade, que ao ser feita essa pergunta, Alice Braga, que estava acompanhando a coletiva, logo disse em voz alta “lobisomem”, o que fez com que ele tivesse essa resposta. E será que algum dia teremos o ator atuando como lobão? 

A política sendo um fator que reflete nas escolhas de trabalho

Como em muitos momentos, o ator é conhecido por sempre falar sobre política quando aparece, sendo em entrevistas, fazendo e dirigindo filmes como Marighella, o que em grande parte, o conservadorismo nacional dá duras críticas ao ator. Na coletiva, Wagner explicou o porquê de falar sobre:

“Sempre achei que a arte é política, independentemente do que você faz. Às vezes você assiste uma comédia despretensiosa e aquilo te traz algum tipo de questionamento, de transformação (…) para mim, o conceito de política é muito amplo na minha cabeça e alguns artistas se dedicam a fazer uma arte mais claramente engajada. Eu sempre gostei muito de cinema político: o cinema que mais me influenciou na minha vida era o neo realismo italiano, aqueles filmes italianos no pós-guerra que são referências para o Cinema Novo (1960 – 1972) e até para filmes brasileiros mais recentes como Cidade de Deus, Tropa de Elite. 

(…) Eu sou um homem que eu gosto de política, me interesso por política, me interesso por justiça social, por coisas que a mim me toca, (…) eu faço as coisas para mim, então se depois daquilo fizer sentido para todas as pessoas, massa. Então me parece natural que o meu caminho tenha esse tipo de engajamento, embora eu me sinta preso a isso, também não quero ficar preso.. eu quero fazer um lobisomem. Mas sim, eu acho que o meu trabalho tem muitos momentos que o meu interesse na política reflete mas escolhas que eu faço.” 

Ainda Estou Aqui e a importância do filme nacionalmente

Nosso cinema nacional está em um ótimo momento: Ainda Estou Aqui, filme que Fernanda Torres e Selton Mello estrelam e tem como cenário a ditadura militar, – um período muito manchado de sangue socialmente na história do país, está com uma perspectiva internacional nas grandes premiações. Até esse momento, o filme já ganhou diversos prêmios e mira para uma indicação nos mais importantes: Globo de Ouro e Oscar. Wagner aproveitou para falar sobre o projeto e falar sobre parte da população (conservadora) fazer críticas à Lei Rouanet.

“(…) Ainda Estou Aqui é um filme lindo. É um filme importante. É demais ver as pessoas indo ao cinema, ver aquele tipo de filme que fala daquele assunto da forma que fala, sobretudo depois de tantos desses últimos anos em que não só ser artista era uma coisa demonizada, como também falar da ditadura militar, da tragédia do que aquilo foi era uma coisa que era “discutível” né? Esse negócio de dar narrativas é um negócio muito louco né? 

De você ouvir gente dizendo que “não, não houve holocausto na Segunda Guerra Mundial, ditadura foi nada”… e essas coisas são muito perigosas. Então filmes como esse que fazem você ir ao cinema, e ter uma relação emocional com uma história que aconteceu, acho que são muito importantes. Não precisa indicar esse filme que é um sucesso enorme, mas é um filme que nos dá a todos, a mim, dá muita alegria ver um filme desses cheio de gente. E a possibilidade desse filme representar o Brasil no Oscar, e aí você vê os brasileiros orgulhosos daquilo.. O Brasil sentiu orgulho dos seus artistas. É uma coisa que fazia tempo que eu… (não via).

Ter orgulho da Nanda Torres pelo trabalho fo** que ela fez, sabe Waltinho, Selton, aquela equipe.. Isso me deixa muito feliz. Porque durante um tempo nós éramos Inimigos do país, os ladrões da Lei do Incentivo, essa escrot**** toda que se arrumou.”

Se interpretaria novamente algum personagem, se tivesse oportunidade

“Nenhum. Gostei muito de fazer e foram os dois, de fato, importantíssimos na minha vida. A minha parceria com José Padilha é uma coisa muito forte né? Porque a gente fez dois filmes muito fortes no Brasil, Tropa 1 e Tropa 2 e depois a gente fez Narcos, que foi um sucesso gigante no mundo inteiro e todos são obras políticas: Tropa de Elite é sobre a violência policial e a forma como a polícia lida, a relação da polícia com o poder público, enfim milícias e tal (…) e Narcos a questão do narcotráfico que é um negócio que a cada dia mais virando um problema gigante no mundo, país virando narcopaíses, o México, aqui mesmo nas entranhas da criminalidade no Estado. Eu tenho muito orgulho, muito orgulho dos três projetos, mas eu não refaria nenhum.”

Sobre o futuro projeto com Kleber Mendonça, O Agente Secreto

Já mirando no futuro, Wagner fala sobre seu próximo trabalho: O Agente Secreto, que temos poucas informações, mas o que sabemos é dirigido por Kléber Mendonça Filho (Aquarius, Bacurau) e tendo Recife como cenário.

“Acho engraçado assim, um dia encontrar Kléber num festival de cinema e de política, (…) a gente está numa época difícil, é duro. Meio que estamos ali militando na mesma trincheira e eu adoro os filmes de Kléber, todos os filme de Kléber, eu acho ele fo** e eu gosto dele. Então a gente começou a criar esse projeto junto, demorou, como convém aos bons projetos, mas ele foi amadurecendo e tal e a gente conseguiu filmá-lo esse ano, e aí teve tantas coisas: de estar falando português, de estar em Recife, no Nordeste.”

Para quem não sabe, Wagner começou a ter reconhecimento após participar, junto com os amigos Lázaro Ramos e Vladimir Britcha, da peça A Máquina levada ao Rio de Janeiro. Por O Agente Secreto se passar em no Nordeste, ele relembrou esse momento de início de carreira. 

“eu tenho uma relação muito forte com Recife, tenho muitos familiares lá e essa peça que eu citei é A Máquina, é uma peça muito importante pra mim, pro Lázaro Ramos, pro Vladimir Britcha, pro Gustavo Falcão… é uma peça que quando tínhamos 23/24 anos, nós fomos para Recife ensaiar essa peça, vivemos em Recife. Então foi uma peça que nos projetou assim para o cinema e na nossa amizade.. então a minha memória de Recife são as melhores possíveis.”

“Foi demais cara, apesar dele (Kléber) ser um cara jovem ele é um mestre do cinema, é uma enciclopédia. Você pega qualquer filme, ele vai te dizer a ficha técnica todinha, é um negócio meio maluco que ele é um pouco e é incrível trabalhar com ele, eu fiquei muito feliz. Doido pra ver esse filme.” – e acabou aproveitando para falar sobre o amigo, Kléber.

Painel com homenagens, retrospectiva e time do coração

Foi no palco principal, o Palco Thunder, que a noite do Wagner e do público terminou emocionante com coração quentinho. Um palco onde grandes estrelas e estreias passavam por lá, nada mais justo que um dos maiores atores brasileiros não deixasse de passar. 

Homenageado com um auditório lotado, o ator emocionou, com a retrospectiva da carreira toda e dos momentos pessoais, quando criança deu uma entrevista ao jornal local de Rodelas, cidade do interior da Bahia onde nasceu. 

Conforme o painel foi passando, o ator foi contando sobre sua trajetória, desde o dia que sofria bullying na escola particular “Me chamavam de ovni” até quando o Matt Damon, ator hollywoodiano, confundiu a bandeira brasileira com um hambúrguer “Eu confesso que eu não gostei muito”. Ambos estrelaram o mesmo filme, Elysium.

Tivemos homenagens dos amigos mais próximos como Vladmir Brichta, Lázaro Ramos, Seu Jorge e Bruno Garcia, além de receber um abraço surpresa no palco de Alice Braga e arrancar elogios à amiga. Kleber Mendonça Filho também apareceu para deixar sua homenagem, trazendo uma prévia do filme que ambos tem um projeto juntos: O Agente Secreto.

Para terminar, como um bom torcedor do Vitória, ele não poderia passar batido do time. O elenco então mandou um recado por vídeo junto com uma camisa autografada e personalizada com o nome do ator, assim encerrando a sua homenagem e a noite da sexta-feira na CCXP.

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